
21/05/2026
A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, está entrando em uma nova fase de instabilidade que pode acelerar ainda mais a elevação do nível do mar nas próximas décadas. Imagens recentes de satélite revelam que a plataforma de gelo flutuante que ajuda a conter a geleira apresenta fraturas profundas e sinais claros de ruptura iminente.
Conhecida como “geleira do apocalipse”, a Thwaites já responde por cerca de 4% da elevação global dos oceanos. O temor dos cientistas é que o enfraquecimento contínuo da estrutura desencadeie um efeito dominó sobre parte da camada de gelo, contribuindo futuramente para um aumento de até 3,3 metros no nível do mar.
A principal preocupação dos glaciologistas envolve a Plataforma de Gelo Oriental de Thwaites (TEIS), uma massa flutuante de cerca de 1.500 km² que atua como uma barreira natural, desacelerando o fluxo do gelo continental em direção ao oceano.
Especialistas afirmam que a estrutura sofreu mudanças drásticas nos últimos anos. Fissuras gigantes passaram a cortar a plataforma, principalmente próximas aos pontos de ancoragem submarinos que antes ajudavam a estabilizar o gelo. Pesquisadores relatam que a velocidade do fluxo da plataforma triplicou desde 2020 e continua aumentando rapidamente.
De acordo com os cientistas, o processo é resultado da combinação entre águas oceânicas mais quentes — que afinam a base da plataforma — e alterações na dinâmica do próprio fluxo glacial. O gelo, antes espesso e relativamente estável, tornou-se mais fino, frágil e vulnerável à fragmentação.
Por mais que seja impossível prever exatamente quando ocorrerá o rompimento definitivo, pesquisadores compararam esse tipo de colapso à dificuldade de antecipar terremotos: os sinais de instabilidade são claros, mas o momento exato permanece imprevisível.
Para os especialistas, o ponto central não é o desprendimento visual de icebergs, mas a perda da capacidade de sustentação exercida pela plataforma de gelo. Sem essa contenção, a geleira tende a acelerar seu avanço em direção ao oceano.
Estudos citados pela revista New Scientist, que passam por revisão por pares e aguardam para serem publicados, indicam que o fluxo de gelo anteriormente estabilizado pela TEIS aumentou cerca de 33% entre 2020 e 2026, sinalizando que a plataforma praticamente deixou de exercer sua função de freio natural.
As consequências desse processo devem ocorrer de forma gradual, mas persistente. Projeções apontam que a Thwaites poderá perder cerca de 190 gigatoneladas de gelo por ano até 2067 — volume aproximadamente 30% superior ao atual.
Os pesquisadores ressaltam que o avanço do nível do mar associado à geleira não representa uma ameaça imediata, mas um processo cumulativo que poderá afetar cidades costeiras e alterar litorais em diferentes regiões do planeta ao longo das próximas décadas.
Os alertas em torno da Thwaites ganharam força após um episódio recente envolvendo a geleira Hektoria, na Península Antártica. Segundo estudo publicado em 2025 na revista Nature Geoscience, a geleira sofreu um recuo extremamente rápido entre 2022 e 2023, perdendo cerca de 25 quilômetros de extensão em apenas 15 meses.
Os pesquisadores identificaram que a perda da língua de gelo flutuante que protegia a Hektoria desencadeou uma sequência de colapsos acelerados. Em um intervalo de apenas dois meses, a extremidade da geleira recuou mais de 8 km — um dos episódios mais rápidos já registrados para gelo glacial ancorado.
Segundo os cientistas, o afinamento do gelo permitiu a infiltração de água do mar sob a geleira, favorecendo um mecanismo chamado desprendimento impulsionado pela flutuabilidade. Nesse processo, grandes áreas de gelo perdem contato com a rocha subjacente e colapsam rapidamente, destaca o portal Science Daily.
Embora a Hektoria seja muito menor que a Thwaites, os pesquisadores afirmam que ela funciona como um alerta sobre o comportamento de geleiras maiores em um planeta cada vez mais quente. Para os glaciologistas, o aumento da temperatura dos oceanos e da atmosfera está acelerando a perda de estabilidade das plataformas de gelo antárticas, exatamente como previam os modelos climáticos.
Fonte: Folha de S. Paulo
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