
28/05/2026
Peixes da bacia do Rio das Velhas, um dos principais afluentes do Rio São Francisco, acumulam microplásticos há pelo menos duas décadas, segundo pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (UFLA). O estudo analisou amostras coletadas desde 1999 e identificou que a presença dessas partículas varia conforme o grau de urbanização e o uso do solo ao redor dos rios.
Os microplásticos, fragmentos com menos de cinco milímetros, já estão incorporados ao ambiente aquático e aos organismos que vivem nesses ecossistemas. A pesquisa utilizou uma base considerada rara: peixes preservados ao longo de mais de 20 anos, originalmente coletados para outros estudos e agora reavaliados sob a perspectiva da contaminação plástica.
“Esses exemplares funcionam como uma cápsula do tempo. Eles registram no próprio corpo o nível de contaminação do período em que viveram”, explica a doutoranda Marina Ferreira Moreira, autora da tese no Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da UFLA, sob orientação do professor Paulo dos Santos Pompeu.
Os resultados mostram que a contaminação não ocorre de maneira uniforme.
No Rio das Velhas, que atravessa a Região Metropolitana de Belo Horizonte, a presença de microplásticos nos peixes analisados se manteve relativamente estável desde o fim da década de 1990. Já no Rio Cipó, localizado em área mais preservada dentro do Parque Nacional da Serra do Cipó, foi observada tendência de redução ao longo dos anos.
Em contraste, trechos mais a jusante da bacia, áreas mais distantes das nascentes e com forte influência da agropecuária, apresentaram tendência de aumento na contaminação.
O estudo também identificou que ambientes de água mais parada, como lagoas marginais e reservatórios, funcionam como zonas de acúmulo dessas partículas, elevando a exposição dos organismos aquáticos.
A pesquisa concentrou-se em espécies de lambaris, peixes pequenos e abundantes na bacia. Apesar da aparência semelhante, as espécies não reagiram da mesma forma à presença de microplásticos. Algumas apresentaram maior ingestão do que outras.
O dado é relevante porque indica que o uso de uma única espécie como indicador ambiental pode não refletir com precisão a dimensão da contaminação em um ecossistema.
Além disso, fatores como turbidez da água influenciam a ingestão. Em ambientes mais turvos, peixes que se alimentam visualmente podem ter maior dificuldade em distinguir alimento de partículas plásticas.
Embora os efeitos dos microplásticos na saúde humana ainda estejam em investigação, o fato de essas partículas circularem na cadeia alimentar acende um alerta. “O peixe é uma fonte importante de alimento para muitas comunidades. Entender onde e como ocorre a contaminação é essencial para pensar em conservação dos rios e segurança alimentar”, afirma a pesquisadora.
A pesquisa já inspira novos desdobramentos. Duas alunas de iniciação científica ampliam agora o estudo, analisando peixes de córregos urbanos e espécies juvenis de piracema, aquelas que migram para se reproduzir. A ideia é entender como diferentes hábitos e ambientes influenciam o acúmulo de microplásticos. A equipe também pretende incluir outras espécies, como cascudos.
Fonte: CicloVivo
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