
28/05/2026
No ano em que registra o menor desmatamento em quatro décadas, a Mata Atlântica chega ao seu dia nacional, celebrado em 27 de maio, como uma potencial vitrine de uma nova agenda econômica: a restauração produtiva. Antes vista sobretudo como uma ação ambiental, a recuperação da vegetação nativa vem se tornando uma alternativa estratégica para explorar atividades produtivas sustentáveis, com potencial de geração de renda e novas oportunidades para produtores rurais e comunidades.
Em 2025, o desmatamento na Mata Atlântica atingiu o menor nível registrado em toda a série histórica do monitoramento da SOS Mata Atlântica e Inpe, iniciado em 1985. Ao longo desse período, houve redução de 40% na área desmatada, que passou de 14.366 para 8.658 hectares. Esse marco reforça os avanços na conservação e políticas públicas do bioma. Em paralelo, a relevância da Mata Atlântica na agenda global de restauração se destaca, projetando-a como um laboratório de modelos capazes de integrar conservação, produção e desenvolvimento econômico.
O bioma é reconhecido desde 2022 pela ONU e pela FAO como uma das 10 Iniciativas de Referência Mundial da Década da Restauração de Ecossistemas (2021-2030). Para Cézar Borges, membro do Grupo Gestor do Observatório da Restauração, trata-se de um mérito relacionado à governança construída no território, que integra setor público, empresas, academia e sociedade civil: “Todos esses atores comprometeram-se com metas comuns para implementar e escalar a restauração no bioma, o que garante integridade às iniciativas.”
Os benefícios econômicos da restauração se materializam em diversas iniciativas. Recentemente, ocorreu no sul da Bahia a primeira comercialização de créditos de carbono provenientes de restauração da vegetação nativa, realizada por uma empresa privada. Borges destaca que essa agenda vem se estruturando nos últimos anos e pode ser uma das alternativas no mercado de Soluções baseadas na Natureza (SbN), mas que ainda está em processo de regulamentação e aprimoramento técnico.
“A governança já estabelecida na Mata Atlântica, aliada ao histórico científico e institucional, oferece condições para que os créditos tenham maior segurança, integridade ecológica e de inclusão social, desde que as iniciativas de carbono atuem de forma integrada e com uma governança de paisagem compartilhada com os atores locais”, afirma o especialista. “Um dos desafios é garantir monitoramento e transparência, e é justamente aí que plataformas como o Observatório da Restauração desempenham papel essencial, assegurando clareza sobre quem realiza a restauração, onde e de que forma, fortalecendo a credibilidade das iniciativas.”
A restauração produtiva também abre caminhos para a bioeconomia. Modelos como os Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Silvipastoris, que integram espécies nativas a produção agrícola – a exemplo de consórcios de café e cacau com espécies nativas -, são um dos caminhos produtivos sustentáveis em paisagens fragmentadas da Mata Atlântica. Essa prática permite que produtores rurais se beneficiem de serviços ecossistêmicos como polinização e controle natural de pragas, aumentando a qualidade dos produtos e reduzindo custos.
Paralelamente, a silvicultura de espécies nativas ganha destaque com a identificação de 15 espécies de árvores de alto potencial econômico, capazes de gerar renda e emprego enquanto recuperam o ecossistema. “O lançamento do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento da Silvicultura de Espécies Nativas (PP&D-SEN) mostra como a agenda de silvicultura de nativas tem potencial, condições técnicas e está sendo vista de modo estratégico pelo país, com o BNDES investindo R$ 24,9 milhões para pesquisa e parcerias nessa área nos próximos cinco anos”, explica Borges. “Isso é uma sinalização de como o plantio e comércio de árvores nativas pode ser um ativo de mercado. O desafio, agora, é o ajuste em algumas normas de rastreabilidade e conexão com potenciais compradores no mercado nacional e internacional.”
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