
28/07/2026
Enquanto o elefante-africano e a tartaruga-de-pente não eram espécies ameaçadas de extinção, os fabricantes de instrumentos musicais usavam pedaços da presa de um e do casco da outra por suas qualidades acústicas ou decorativas. Esses animais agora estão protegidos, mas muitas peças mais antigas, como violoncelos e fagotes, feitas com esses materiais continuam sendo usadas —e dá para imaginar os problemas resultantes disso.
Como o impasse ocorrido em 2014, durante uma operação internacional de repressão ao comércio de marfim, que acabou tendo grande repercussão: as autoridades do aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, confiscaram diversos arcos dos instrumentistas da Orquestra do Festival de Budapeste porque continham pontas de marfim, embora tenham sido fabricados antes da formalização da ilegalidade.
Os arcos acabaram sendo devolvidos, mas as dúvidas sobre materiais protegidos persistem, levando muitos músicos, temendo pelos instrumentos de dezenas ou centenas de milhares de dólares, a retirar materiais proibidos de suas peças.
Rafael Figueroa, principal violoncelista da Orquestra da Ópera Metropolitana, por exemplo, substituiu a peça de marfim original de seu arco de quase cem anos, avaliado em US$ 30 mil (R$ 153 mil), por uma de prata, e o cordal de pau-rosa de seu violoncelo por um de ébano. "Ouvi tantas histórias horríveis de confisco dos colegas, inclusive gente com a documentação em ordem. Ficou quase impossível recuperá-los."
Só que nem todas as partes podem ser substituídas tão facilmente quanto a ponta de marfim de um arco. Em meados de 2025, o governo brasileiro causou pânico ao propor o aumento das proteções internacionais para uma árvore ameaçada de extinção: o pau-brasil, utilizado na grande maioria dos instrumentos de corda.
Como resultado, milhares desses objetos podem estar sujeitos a apreensão na alfândega, comprometendo o setor de turnês orquestrais, que movimenta milhões de dólares, e forçando os músicos a pensar em materiais alternativos, como a fibra de carbono.
Porém, a relação entre a madeira e a música não é um caso típico de consumo excessivo de recursos ambientais; seus principais consumidores, ou seja, os fabricantes de arcos, têm se empenhado para conservá-la. Há décadas trabalham para documentar os estoques legais, rastrear a proveniência das peças acabadas e replantar milhões de árvores.
Chase Maggiano, restaurador da Rare Violins de Nova York, disse: "Para colocar as coisas em perspectiva no que diz respeito ao desmatamento: geralmente um fabricante de arcos utiliza, ao longo da vida, o equivalente a uma única árvore".
Ao lado de um grupo de colegas, ele liderou uma reação contra a iniciativa brasileira de aumentar as proteções, mobilizando músicos do mundo inteiro, bem como pesquisadores ambientais —e tiveram sucesso.
Na edição mais recente da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (conhecida como Cites), que regulamenta espécies ameaçadas, os representantes dos EUA e de outras nações convenceram o Brasil a chegar a um acordo: em vez de aumentar as proteções de forma generalizada, agora são exigidas autorizações governamentais rigorosas para a maior parte das atividades comerciais internacionais envolvendo o pau-brasil, o que inclui a venda ou o comércio de arcos.
A indústria das turnês de orquestras suspirou aliviada —afinal, músicos podem continuar viajando sem se preocupar com seus instrumentos. Entretanto, essa suspensão pode ser temporária: já se espera que a questão seja abordada na próxima reunião da Cites, em 2028, quando serão apresentadas pesquisas atualizadas sobre a situação de conservação da árvore.
Até lá, os fabricantes continuam atuando para protegê-la por meio de diversos programas, incluindo um projeto novo de reflorestamento, anunciado em junho por uma iniciativa internacional de conservação com o objetivo de ajudar a restaurar uma importante bacia hidrográfica destruída pelo desmatamento perto de Pau Brasil, cidade no interior da Bahia.
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