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Fogo e desmatamento transformam amazônia em fonte de carbono para a atmosfera

27/10/2026

A amazônia, maior floresta tropical do planeta, liberou para a atmosfera 1,17 bilhão de toneladas de dióxido de carbono (CO2) a mais do que absorveu, em média, a cada ano entre 2010 e 2024. As queimadas foram a principal fonte —emitiram cerca de 1,47 bilhão de toneladas de CO2 por ano, muito acima da capacidade de absorção da mata, de 300 milhões de toneladas ao ano.
É o que mostra pesquisa publicada na quarta-feira (21) na Nature, uma das revistas científicas mais importantes do mundo. O trabalho, liderado por cientistas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), recebeu financiamento da Fapesp e outras instituições nacionais e internacionais.
Com base na análise de 15 anos de medições atmosféricas de carbono, principal gás de efeito estufa, o estudo identificou as atividades humanas como fator responsável pelo desequilíbrio. Assim, uma redução drástica das queimadas, aliada ao desmatamento zero e à restauração florestal, é essencial para evitar um ponto de não retorno da floresta —ou seja, que atinja um limite a partir do qual perde a capacidade de se manter e se recuperar, dando lugar a outro tipo de vegetação.
O alerta é particularmente importante em um momento em que os focos de incêndio na Amazônia estão próximos do total de 2025. São mais de 41,3 mil registros em menos de dez meses (58% concentrados em setembro e outubro), contra 43,1 mil em todo o ano passado, de acordo com dados do Inpe. A fumaça densa cobriu municípios do Amazonas, especialmente a capital, Manaus, levando à suspensão de aulas, à sobrecarga do sistema de saúde por problemas respiratórios e à investigação de crime ambiental, com suspeita de ações deliberadas.
"A principal mensagem da pesquisa é chocante: o problema da Amazônia é a ação humana. Estamos perdendo a floresta porque o modelo de desenvolvimento da região tem sido baseado na destruição. Precisamos de políticas públicas que valorizem a floresta em pé", diz a cientista do clima Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do Inpe e principal autora do artigo.
Além de identificar os fatores associados às emissões, a pesquisa evidencia mudanças nas condições climáticas da região ao longo das décadas. Ao analisar dados dos últimos 46 anos, os cientistas apontam que o desmatamento e a degradação na Amazônia reduziram a precipitação anual em 8% e, no pico da estação seca (entre agosto e outubro), em 20%. No mesmo período, a temperatura média anual aumentou 1,13°C; já na estação seca, a elevação foi de 1,81°C.
Segundo Gatti, essas alterações comprometem as condições para a manutenção da floresta úmida e contribuem para um ciclo de retroalimentação, em que a perda da vegetação reduz as chuvas e eleva as temperaturas, favorecendo novas queimadas e ampliando a degradação da floresta remanescente. "É um estresse muito grande sobre a floresta que fica", diz a pesquisadora.
Os cientistas compararam períodos com diferentes condições climáticas e de intervenção humana, agrupando os anos em três cenários: anos chuvosos com baixa intensidade de atividades antrópicas (2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018); anos de baixo estresse climático (entre 2019 e 2022) e altos índices de desmatamento (aumento de 97%) e queimadas (crescimento de 25%); e anos quentes e secos (2010, 2015, 2016, 2023 e 2024), em que houve impactos de fenômenos como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte, associados a um intenso aumento das queimadas (92%).
Os resultados mostraram que, nos anos dos grupos 2 e 3, na média, a amazônia mudou de estocadora para fonte de CO2. Isso porque houve superávit a favor das emissões no chamado "balanço de carbono", que leva em conta todos os processos de absorções e liberações, naturais ou estimuladas pelo homem.
No grupo 2, as emissões foram quase quatro vezes maiores do que no grupo 1, alcançando um balanço médio equivalente a cerca de 1,58 bilhão de toneladas de CO2 por ano. O maior valor foi do grupo 3, em que o balanço médio atingiu 1,8 bilhão de toneladas de CO2 por ano.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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