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Mercúrio é detectado em níveis alarmantes na Amazônia peruana

03/02/2022

A floresta amazônica primária (nome dado às áreas com menor intervenção humana) do sudeste do Peru parece intocada. Árvores antigas com troncos enormes crescem ao lado de árvores jovens e finas, formando uma copa tão espessa que cientistas às vezes têm a impressão de que é noite durante o dia.
Mas uma análise recente do que há dentro das folhas das árvores e das penas das aves conta uma história diferente: a mesma copa que sustenta possivelmente a mais rica biodiversidade do planeta também está absorvendo níveis alarmantes de mercúrio tóxico, segundo estudo publicado na sexta-feira (28).
O mercúrio é liberado no ar por garimpeiros que buscam ouro nas margens dos rios. Eles utilizam mercúrio para separar o metal precioso dos sedimentos que o cercam e depois o queimam.
Partículas de mercúrio são libertadas no ar, caem sobre as folhas como pó e são levadas ao chão da floresta pela chuva. Outras partículas são absorvidas pelas folhas.
A partir dali, o mercúrio parece ter se transferido pela cadeia alimentar, chegando aos pássaros canoros, que revelaram níveis de mercúrio entre 2 e 12 vezes mais altos que os de áreas comparáveis mais distantes de atividade garimpeira.
"O padrão foi muito mais forte e devastador do que prevíamos encontrar", comentou a biogeoquímica Jacqueline Gerson, da Universidade da Califórnia em Berkeley, que liderou o estudo como doutoranda da Universidade Duke. O estudo foi publicado no periódico Nature Communications.
Feita na região de Madre de Dios, no Peru, a descoberta traz novas evidências de como os humanos estão modificando ecossistemas em todo o mundo com pouco entendimento das consequências, enquanto as extinções de espécies se aceleram.
Cientistas sabem há muito tempo que o mercúrio, também liberado no ar pela queima de carvão, é uma neurotoxina perigosa para humanos e animais.
Nos sistemas aquáticos o mercúrio pode facilmente converter-se numa forma altamente tóxica chamada metilmercúrio. Quando os peixes maiores consomem os menores, o mercúrio continua presente, acumulando-se na cadeia alimentar.
Por esse motivo, grávidas são aconselhadas a evitar o consumo de peixes predatórios grandes como cação, cavala e peixe-espada.
O garimpo ilegal de ouro vem aumentando na região de Madre de Dios nos últimos anos, acompanhando a alta do preço do ouro nos mercados mundiais. Em 2016 o governo peruano declarou emergência sanitária na região, depois de 40% das pessoas testadas em 97 vilas terem apresentado níveis perigosamente altos de mercúrio no organismo.
Os cientistas têm enfocado principalmente a exposição humana a mercúrio em rios, lagos e oceanos. Eles não têm se preocupado igualmente com a presença do mercúrio em terra, já que é menos provável que se converta em metilmercúrio. Mas o volume grande de mercúrio liberado na floresta, somado ao solo e às condições chuvosas, estão levando a níveis preocupantes de metilmercúrio na região.
"Imaginava-se até agora que a exposição a metilmercúrio da população da Amazônia peruana viesse do consumo de peixes", disse Jacqueline Gerson. "Mas é possível que não seja o caso."
O tipo de garimpo artesanal de ouro feito na região de Madre de Dios é praticado em cerca de 70 países, muitas vezes de modo ilegal ou extraoficial, e é a maior fonte mundial de poluição por mercúrio. E é responsável por cerca de 20% da produção mundial de ouro.
Julio Cusurichi Palacios, presidente da Federação Indígena do Rio Madre de Dios e Afluentes, formado por comunidades indígenas da região, disse que o governo deveria combater o garimpo ilegal com força policial, mas também promover meios de subsistência alternativos para os indígenas e outros habitantes da região.

Saiba mais na Folha de S. Paulo

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