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O ´atlas do sofrimento humano´

08/03/2022

O segundo volume do sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) foi lançado no dia 28 de fevereiro. A mensagem é clara e dura: as emissões de gases de efeito estufa precisam ser reduzidas em 45% até 2030 para que se evite uma catástrofe climática.
Cerca de 3,3 bilhões de pessoas vivem em áreas de alta vulnerabilidade. Um aumento médio da temperatura global em 1,5°C pode tornar cerca de 8% das terras agrícolas inviáveis ao plantio. Um aumento de 2ºC levaria a escassez de água, prejudicaria a agricultura e a pesca, e causaria fome severa nas áreas mais vulneráveis.
António Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), descreveu o documento como um "atlas do sofrimento humano." O sofrimento, entretanto, é desigual. Entre 2010 e 2020, áreas vulneráveis na África, sul da Ásia e América do Sul registraram um número de mortes devido à seca, enchentes e tempestades 15 vezes maior do que nos países de renda alta.
Atualmente, cerca de 25% da população mundial está exposta aos efeitos do calor extremo. Até o final do século deverão ser de 50% a 75%. Parece um prazo muito longo, mas as mudanças são progressivas. A frequência e a intensidade de eventos climáticos extremos têm aumentado. No Brasil, cerca de 360 mil pessoas foram deslocadas devido a desastres climáticos em 2020, um aumento de 18% em relação a 2019.
Há urgência na adoção de ações de mitigação e adaptação. No contexto brasileiro, três pontos são importantes.
Primeiro, a situação crítica de destruição na Amazônia, com aumento do desmatamento e queimadas. A não reversão desse padrão poderá levar a savanização da Amazônia e expor entre 6 e 11 milhões de brasileiros ao calor extremo, afetando principalmente crianças, idosos, pessoas com comorbidades, e pessoas morando em condições de vulnerabilidade.
Segundo, o contexto urbano. A recente tragédia em Petrópolis é um retrato cruel da expansão urbana desordenada que acontece em várias cidades brasileiras. Dados do MapBiomas mostram aumento da expansão urbana informal em áreas com declive maior que 30% e, portanto, sujeitas a deslizamentos. A PEC 30/2011, aprovada na Câmara dos Deputados no dia 22 de fevereiro, extingue o terreno de marinha e pode levar a especulação imobiliária em áreas costeiras importantes para o equilíbrio ambiental e que deveriam ser preservadas.
Terceiro, o perigo da seca que leva à fome extrema e ao deslocamento em massa. A grande seca de 1877-79 devastou o Nordeste brasileiro, dadas as condições sociais devido à falta de políticas públicas. Cerca de 5% da população do país morreu, e os deslocamentos em massa levaram a criação dos abarracamentos, campos de concentração para abrigar os retirantes da seca. A escassez de água também compromete a capacidade energética. Cerca de 65% da geração de eletricidade no Brasil depende da água. Segundo o MapBiomas, de 1990 a 2020 o Brasil perdeu 15,5% de superfície de água.
Na Amazônia, nas cidades e no Nordeste, são os mais vulneráveis que sofrem.
Como disse Paul Farmer, falecido precocemente no último dia 22, "a ideia de que algumas vidas valem menos que outras é a raiz de tudo que está errado no mundo".
Sem uma política social que verdadeiramente promova a inclusão e a redução das desigualdades, envolvendo diversos atores na busca por soluções, as perdas humanas e ambientais serão incalculáveis. A humanidade tem conhecimento e recursos para impedir essas perdas. Há que haver mais empatia e menos ganância.
Ainda há tempo para agir e reagir. Que todos pensemos nisso ao votar em outubro.

Fonte: Folha de S. Paulo

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