
17/03/2022
As árvores da espécie Pouteria bullata, popularmente conhecida como guapeva-vermelha, são exclusivas da mata atlântica e produzem frutos suculentos e adocicados.
Suas sementes têm cerca de dois centímetros e, portanto, são grandes demais para serem engolidas por pássaros e pequenos mamíferos. Desse modo, a planta depende exclusivamente de primatas como o bugio (Alouatta guariba) e o muriqui (Brachyteles arachnoides) e, eventualmente, da anta (Tapirus terrestris) para dispersar seu material genético e perpetuar a espécie.
Em locais onde esses mamíferos despareceram, também já não é possível encontrar a guapeva-vermelha, classificada como "vulnerádevel" na lista de espécies ameaçadas de extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
E, de acordo com um estudo publicado na revista Biotropica, justamente esses animais importantes para a dispersão de sementes são os primeiros a sumir em decorrência do desmatamento da mata atlântica.
"A dispersão de sementes é um processo complexo, que abarca muitos tipos de vertebrados ao mesmo tempo. O reflexo do desmatamento é a extinção tanto de animais, que perdem o alimento, como de vegetais, que não podem mais se dispersar", conta Lisieux Fuzessy, primeira autora do estudo, realizado com apoio da Fapesp durante seu pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Rio Claro.
O trabalho integra o projeto "O efeito da fragmentação sobre as funções ecológicas dos primatas", também financiado pela Fundação e coordenado por Laurence Culot, professora do IB-Unesp.
Parte da pesquisa foi realizada durante estágio realizado por Fuzessy na Estación Biológica de Doñana (EBD-CSIC), na Espanha, com bolsa da Fapesp e colaboração do pesquisador Pedro Jordano.
"A princípio, a ideia era verificar apenas o papel dos primatas na dispersão de sementes, mas ficou claro que era preciso analisar a atuação de todos os vertebrados", diz a pesquisadora.
Além dos primatas, foram incluídos no estudo dados sobre a dispersão de sementes por aves, morcegos, carnívoros, marsupiais, roedores e ungulados (cervídeos, antas, porcos-do-mato etc.). Com isso, o estudo faz um panorama inédito do papel das interações animais-plantas para a manutenção da biodiversidade.
Para entender os impactos da perda de fauna na floresta, os pesquisadores compararam as interações entre animais e plantas em duas áreas florestais no estado de São Paulo.
Uma é conhecida como uma das mais conservadas da mata atlântica no Brasil, a serra de Paranapiacaba, com mais de 120 mil hectares distribuídos por áreas protegidas e propriedades particulares.
No local ocorrem alguns dos grandes mamíferos mais ameaçados de extinção atualmente, como a onça-pintada (Panthera onca), o cachorro-vinagre (Speothos venaticus) e a queixada (Tayassu pecari), além de antas e muriquis).
A serra de Paranapiacaba é ainda o mais importante refúgio da jacutinga (Pipile jacutinga), uma grande ave frugívora extinta na maioria dos remanescentes de mata atlântica.
Para saber mais sobre o assunto acesse a Folha de S. Paulo
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