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Terra registra recordes de calor nos polos; entenda o que há de inédito e o que isso revela sobre a crise climática

24/03/2022

A Antártica e o Ártico registraram recordes de temperatura na mesma semana — os extremos da Terra apresentaram um calor pelo menos 30ºC maior do que a média para esta época do ano. O cenário, segundo climatologistas, é inédito, apesar de ser previsto pelos cientistas como uma das consequências da atual "era" de emergência climática.
As duas regiões do planeta têm características próprias e, portanto, reagem às mudanças do clima de forma diferente. O Ártico é um oceano coberto por uma camada de gelo marinho, cercado por três continentes - Ásia, América do Norte e Europa. Já a Antártica é um continente por si só, cercado pelo oceano.
Na Antártica, o recorde recente foi registrado na sexta-feira (18) na base de pesquisa franco-italiana Concordia, instalada na Cúpula C, ou Domo C, uma região inóspita e com mais de 3 km de altitude. A temperatura registrada foi de –11,5ºC (ou seja, 11,5ºC negativos), sendo que o esperado para essa época do ano é pelo menos - 50ºC (50ºC negativos), em média. É considerada, por alguns cientistas, a região mais fria da Terra.
Além disso, segundo a plataforma "Climate Reanalyzer", da Universidade do Maine, nos Estados Unidos, todo o continente antártico estava, em média, 4,8ºC mais quente do que a temperatura de referência registrada entre os anos de 1979 e 2000.
"Imagina um platô polar que está a 3 mil metros de altura, que deveria estar a - 50ºC, - 45ºC, e de repente vai a -11ºC. E esse -11ºC nunca foi visto, pelo menos não desde 1957, 1958, quando passamos a ter estação naquela região", afirma o pesquisador Francisco Eliseu Aquino, o Chico Geleira, que já esteve 18 vezes na Antártica. Ele é integrante do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Segundo Geleira, o recorde na Antártica é inédito e, mais do que isso, o fato de a temperatura variar tanto quase "no fim do mundo" surpreendeu os pesquisadores. Para ele, a chegada de uma onda de calor à região congelante por natureza é um sinal dos impactos da emergência climática.
"Nós estamos indo do outono em direção ao inverno, que lá é muito pronunciado. Nós não esperamos onda de calor por lá nem no verão", explicou.
"Para isso acontecer, a circulação atmosférica precisou se organizar de uma forma muito intensa, induzindo um ciclone extratropical para levar ar quente e úmido da região tropical até o interior da Antártica. É como se você tivesse um rio voador de umidade indo para o interior do platô polar", completou.
Em medições pontuais em estações do Ártico, incluindo recordes na Noruega e na Groenlândia, alertaram temperaturas até 30ºC mais altas do que o previsto para essa época do ano. Na sexta-feira, toda a região estava em média 3,3ºC mais quente do que o período de 1979 a 2000, de acordo com a "Climate Reanalyzer".
Por ser um oceano coberto por uma camada de gelo e apresentar outra dinâmica, esse extremo do planeta já tem registrado ondas de calor há algumas décadas – apesar da recorrência, isso não significa que o fenômeno é inócuo e não possa ter consequências da crise climática.
"Em alguns anos, durante o verão, a extensão do gelo caiu mais de 40% do que seria a média esperada. Nós estamos vendo o desaparecimento no auge do verão, isso é setembro, de grande parte do oceano Ártico. Ou seja: a cobertura de gelo do oceano Ártico está cada vez menor", explica Jefferson Simões, coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera.

A matéria completa pode ser lida no g1

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