
07/04/2022
Desde que existe vida marinha existe neve marinha —uma chuvinha incessante de resíduos e seres mortos que vão descendo da superfície para as profundezas do mar.
A neve começa sob a forma de ciscos, que se agregam para formar flocos densos que vão gradualmente afundando, passando pelas bocas (e semelhantes) de seres necrófagos que vivem mais abaixo. Mas mesmo a neve marinha que é devorada provavelmente voltará a ser neve outra vez. As entranhas de uma lula não passam de uma parada para descanso nesse longo percurso para as profundezas.
O termo "neve" pode sugerir algo branco e invernal, mas a neve marinha é sobretudo marrom ou acinzentada, sendo composta principalmente de material morto. Há tempos imemoriais os detritos sempre contiveram as mesmas coisas: resíduos de plantas e carcaças de animais, fezes, muco, poeira, micróbios e vírus, e eles sempre transportaram o carbono do oceano para ser armazenado no leito do mar.
Cada vez mais, contudo, a neve marinha está sendo infiltrada por microplásticos: fibras e fragmentos de poliamida, polietileno e polietileno tereftalato (PET). E essa neve de material não orgânico parece estar alterando o processo milenar de resfriamento de nosso planeta.
Dezenas de milhões de toneladas de plástico entram nos oceanos da Terra todos os anos. Num primeiro momento, cientistas pensaram que o material estava destinado a boiar em grandes ilhas ou redemoinhos de lixo, mas levantamentos da superfície oceânica revelam apenas cerca de 1% do total estimado de plástico presente nos oceanos.
Um modelo recente concluiu que 99,8% do plástico que entrou no oceano desde 1950 afundou para abaixo das primeiras centenas de pés do oceano. Cientistas encontraram 10 mil vezes mais microplásticos no leito do mar que em águas superficiais contaminadas.
A neve marinha, um dos principais caminhos que ligam a superfície e as profundezas, parece estar ajudando os plásticos a afundar. E cientistas estão apenas começando a decifrar como esses materiais interferem nas redes alimentares do mar profundo e nos ciclos oceânicos naturais de carbono.
"Não é apenas porque a neve marinha transporta plásticos ou agregados com plástico", disse Luisa Galgani, pesquisadora na Florida Atlantic University. "É que a neve e os plásticos podem se ajudar mutuamente a chegar ao fundo do oceano."
A superfície do mar, iluminada pelo Sol, está cheia de fitoplânctons, zooplânctons, algas, bactérias e outras formas de vida minúsculas, todas se alimentando de raios solares ou umas das outras. Quando esses micróbios metabolizam, alguns produzem polissacarídeos que podem formar um gel pegajoso que atrai os corpos de organismos minúsculos mortos, pequenos pedaços de carcaças maiores, cascos de foraminíferos e pterópodes, areia e microplásticos, que se agregam para formar flocos maiores.
"Eles são a cola que conserva agregados todos esses componentes da neve marinha", disse Galgani.
Os flocos de neve marinha caem a velocidades diferentes. Os flocos menores descem mais lentamente —"pode ser apenas um metro por dia", disse a oceanógrafa biológica Anela Choy, do Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia em San Diego.
Partículas maiores, como balas fecais densas, podem afundar mais rapidamente. "Esse material mergulha rápido para o fundo do oceano", comentou a pesquisadora Tracy Mincer, da Florida Atlantic University.
O plástico presente no oceano é degradado constantemente; mesmo um objeto grande e flutuante como uma jarra de leite acaba se decompondo em microplásticos. Esses plásticos desenvolvem camadas biológicas formadas por comunidades microbiais distintas —a chamada "plastisfera", segundo Linda Amaral-Zettler, cientista do Real Instituto Holandês de Pesquisas Marinhas, que cunhou o termo.
"Costumamos pensar no plástico como sendo inerte", ela disse. "A partir do momento em que entra no meio ambiente, ele é rapidamente colonizado por micróbios."
Os microplásticos podem dar carona a tantos micróbios que estes acabam neutralizando a flutuabilidade natural do plástico, levando sua "jangada" a afundar. Mas se as camadas biológicas se degradam durante o trajeto descendente, o plástico pode acabar boiando para cima novamente, potencialmente levando a um purgatório de microplásticos descrevendo um sobe e desce na coluna de água.
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