
19/04/2022
A Reserva de Biosfera do Mar Negro, na costa sul da Ucrânia, é um paraíso para as aves migratórias. Mais de 120 mil delas passam o inverno revoando em suas margens, e um espectro multicolorido de espécies raras —a águia-de-cauda-branca, o merganso-de-peito-vermelho e o perna-de-pau ou maçaricão, para citar apenas algumas— fazem seus ninhos entre as águas e pântanos protegidos.
A reserva também abriga o rato-toupeira-cego, ameaçado de extinção, o golfinho-nariz-de-garrafa do Mar Negro, flores raras, inúmeros moluscos, dezenas de espécies de peixes —e, nas últimas semanas, um exército invasor.
"Hoje o território da reserva está ocupado pelas tropas russas", disse Oleksandr Krasnolutskyi, vice-ministro de Proteção Ambiental e Recursos Naturais da Ucrânia, em um e-mail no mês passado. "Atualmente não há informações sobre perdas ambientais."
Mas a atividade militar na área provocou incêndios grandes o suficiente para serem vistos do espaço, gerando preocupações sobre a destruição de habitats críticos para a reprodução das aves.
"Nós vimos o que está acontecendo na Ucrânia", disse Thor Hanson, biólogo independente de conservação e especialista em consequências das guerras para o meio ambiente. "E estamos chocados e horrorizados com o custo humano em primeiro lugar, mas também com o que está acontecendo com o meio ambiente lá."
Desde que as forças russas invadiram a Ucrânia, em fevereiro, a atenção do mundo se concentrou nas cidades fortemente bombardeadas do país. Mas a Ucrânia, em uma zona de transição ecológica, também abriga pântanos e florestas vibrantes e uma grande faixa de estepe virgem. As tropas russas já entraram ou realizaram operações militares em mais de um terço das áreas naturais protegidas do país, disse Krasnolutskyi: "Seus ecossistemas e espécies se tornaram vulneráveis".
Relatórios do local e pesquisas sobre conflitos armados anteriores sugerem que o efeito ecológico do conflito pode ser profundo. As guerras destroem habitats, matam a vida selvagem, geram poluição e modificam inteiramente os ecossistemas, com consequências que se propagam ao longo de décadas.
"O meio ambiente é a vítima silenciosa dos conflitos", disse Doug Weir, diretor de pesquisa e política do Observatório de Conflitos e Meio Ambiente, organização sem fins lucrativos com sede na Grã-Bretanha.
Existem exceções. As guerras podem tornar as paisagens tão perigosas ou inóspitas para os humanos —ou criar tantas barreiras à exploração dos recursos naturais— que os ecossistemas têm uma rara oportunidade de se recuperar. É um paradoxo que destaca a ameaça que a atividade humana representa para o mundo natural em tempos de guerra e paz.
"Os humanos geralmente são perturbadores", disse Robert Pringle, biólogo na Universidade Princeton, "e isso inclui seus conflitos."
Saiba mais na Folha de S. Paulo
Projeto transforma crianças da Marambaia em guardiãs do manguezal por meio da música; conheça a iniciativa
13/07/2026
Turista faz registro raro de ´salto´ de tubarão em Ilhabela (SP)
13/07/2026
Projeto ameaça APA da Baleia Franca
13/07/2026
Descoberta no Rio Grande do Sul revela réptil que antecedeu dinossauros e crocodilos
13/07/2026
Super El Niño: o que o Brasil pode fazer antes do clima cobrar a conta
13/07/2026
Amazônia tem menor nível de alertas de desmatamento para o 1º semestre em uma década
13/07/2026
