UERJ UERJ Mapa do Portal Contatos
Menu
Home > Atualidades > Notícias
A musa da sustentabilidade se despede do planeta

31/05/2022

Ela costumava dizer que quando morresse passaria a ser virtual. Em 23 de maio, Hazel Henderson, a futurista da economia e do ambientalismo, se virtualizou aos 89 anos. Faleceu em Saint Augustine, na Flórida, onde vivia.
Hazel deixa um legado para as futuras gerações por ter revolucionado os paradigmas vigentes na economia. Seu notável pensamento sistêmico e capacidade incomparável de compreender a realidade econômica sob múltiplas disciplinas, conectando os pontos sensíveis da problemática mundial, fizeram dela uma “acupunturista global”, como alguns passaram a defini-la.
Despertou o interesse de líderes de diversas nações. Trouxe novos olhares não ensinados nas escolas de economia e administração. A ideia da “economia do amor” foi a matriz do que hoje se conhece por economia colaborativa, orientada por valores femininos e propondo a monetização do trabalho das mulheres (correspondente a 50% da riqueza mundial). Mulheres que tecem os fios do desenvolvimento social e que sustentam a economia e cujas atividades não são contabilizadas pelos governos.
Ao lado do senador Robert Kennedy, criticava o PIB como indicador de crescimento econômico que ignora os impactos socioambientais. Como alternativa ao PIB, desenvolveu os indicadores de sustentabilidade Calvert-Henderson, hoje sob a gestão do Morgan Stanley. Integrou a biomimética na gestão de ativos financeiros, reuniu centenas de economistas e investidores pelo mundo em torno da preservação da natureza, criou o “Green Transition Scoreboard’, uma bússola verde que mede a evolução dos investimentos em energias limpas que muitos governos e planejadores passaram a seguir.
Para sensibilizar as empresas na direção da sustentabilidade, lançou Mercado Ético, uma plataforma multimídia, que no Brasil foi liderada por Christina Carvalho Pinto. Também foi quem passou a promover a ética na propaganda com o Prêmio Ethic Mark Award.
Ícone de vários movimentos globais como o Projeto Millennium (do qual era conselheira e patrocinadora), o WorldWatch Institute, o Greenpeace e a Aliança de Cidadãos pelo Ar Limpo, este último criado por ela.
Foi com a Aliança de Cidadãos pelo Ar Limpo que iniciou, em Nova York, seu ativismo ambiental nos anos 60. A fuligem industrial da grande metrópole que afetou a condição respiratória de sua filha, na época uma criança, acionou em Hazel um gatilho questionador sobre uma economia que prejudicava a saúde da população. Uma economia que não trabalhava em favor das pessoas era para ser confrontada. Foi o que ela começou a fazer. Essa experiência pessoal se expandiu numa incansável luta por uma economia social e ambientalmente mais equilibrada.
Os sistemas de ensino não tinham espaço para sua mente. Mesmo sem ter diploma universitário, foi Doutora Honoris Causa de vários centros acadêmicos mundiais.
Entre os futuristas, Hazel sempre foi uma musa, a quem todos prestavam reverência, entre eles, Al Gore e Alvin Toffler. Minha relação com Hazel começou na virada do século (anos 2000-2001), na época do meu mestrado em Estudos do Futuro nos EUA, quando ainda não a conhecia pessoalmente.
Em 2002 tive o prazer de recebê-la e acompanhá-la durante uma de suas visitas a São Paulo. Desde então nasceu uma aliança sagrada mestre-discípula. Foram dezenas de momentos em que pudemos estar juntas no Brasil e no mundo em diversas atividades inesquecíveis. O Brasil era sua paixão. Acreditava que esse era o país irradiador de uma luz planetária. Aqui, deu aulas em escolas de negócios, como a Amana Key, participou do Fórum Social em Porto Alegre e da ICONS 2003, a primeira conferência mundial de indicadores de sustentabilidade sediada em Curitiba. Foi entrevistada no programa Roda Viva na “TV Cultura”, conversou ao vivo com a feminista, também futurista, Rose Muraro - no registro “Diálogos para o Futuro”. Fez palestras de abertura em momentos marcantes do Brasil, como em uma concertação nacional promovida pelo CDES -Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo Lula. Teve encontros com lideranças política e foi parte de um encantamento mútuo entre ela e Marina Silva.
São diversos os livros e publicações que ficam como legado: o profético “Politics of the Solar Age” (Política de uma Era Solar) que em 1981 já antecipava a ascensão da energia solar e a insustentabilidade do petróleo, “Paradigms in Progress” traduzido em português como “Transcendendo a Economia”, “Além da Globalização”, “Cidadania Planetária” - um diálogo com o mestre budista japonês Daisaku Ikeda -, entre várias outras obras relevantes.
Periodicamente ficávamos conversando por telefone ou quando era possível, em sua casa na Flórida, às vezes nós duas, às vezes com amigos, sempre regadas de afeto, de mergulhos na piscina de sua casa e com algumas taças de vinho. Suas risadas e suas palavras com sotaque britânico vão ressoar eternamente em mim. Sua presença física já não se faz possível, mas Hazel é agora virtual, assim como o seu amor pelo planeta, que sempre irá nos inspirar e fortalecer na esperança por um mundo melhor.

Fonte: O Globo

Novidades

Amazônia tem menor nível de alertas de desmatamento para o 1º semestre em uma década

13/07/2026

A Amazônia registrou no primeiro semestre de 2026 a menor área com sinais de desmatamento detectados...

Antes de extração, projeto de petróleo na costa amazônica gera expansão de invasões

13/07/2026

No mesmo momento em que a Petrobras intensificava o ritmo de perfuração de um poço na costa amazônic...

Nova lei controla presença de chumbo em tintas no Brasil

13/07/2026

Foi sancionada no dia 29 de junho de 2026, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei 15.441/2...

El Niño pode testar preparação do Brasil para incêndios florestais

13/07/2026

Em 2024, o Brasil registrou a maior área queimada por incêndios florestais desde 2012, segundo dados...

O que aconteceu após a China plantar 66 bilhões de árvores

13/07/2026

Se há algo em que a China raramente decepciona é em sua capacidade de pensar grande. Arranha-céus er...