
02/06/2022
O biólogo Antônio F. Carvalho, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (Inma), em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo, realizou um estudo que desvendou uma rede on-line de tráfico de abelhas sem ferrão em todo o Brasil, com valores que variam de R$ 700 a R$ 5 mil.
Em artigo publicado na quarta-feira (1º) na revista "Insect Conservation and Diversity", o pesquisador revelou que o comércio ilegal de ninhos de abelhas sem ferrão realizado na internet é uma das principais ameaças à conservação de espécies brasileiras.
As abelhas sem ferrão são responsáveis por polinizar árvores em florestas tropicais e de plantas comerciais, sendo muito utilizados no Brasil para a produção de mel, atividade conhecida como meliponicultura.
Segundo o Inma, o tráfico dessas espécies para regiões em que não são nativas facilita a disseminação de parasitas e predadores, o que contribui para o desaparecimento das abelhas.
"Muitas discussões estão focadas nos efeitos do aquecimento global na biodiversidade, mas temos questões muito urgentes para tratar. Espécies sumirão da natureza devido ao tráfico muito antes que o clima seja capaz de afetá-las negativamente”, esclarece o pesquisador.
Entre as espécies mais cobiçadas para a venda ilegal estão a uruçu-capixaba (Melipona capixaba) e a uruçu-nordestina (Melipona scutellaris), abelhas em perigo de extinção.
A pesquisa localizou vendedores em 85 cidades brasileiras, sendo a maioria em regiões próximas da Mata Atlântica. Foram 308 anúncios de venda observados no estudo.
As colônias são vendidas a preços que variam de R$ 700 a R$ 5 mil, sendo comercializadas em caixas de madeira de diversos modelos ou em iscas de garrafas pet.
Os ninhos são retirados da natureza e as abelhas são levadas para longas distâncias, sobretudo para localidades fora das áreas de onde são nativas.
Além das abelhas produtoras de mel, também são vendidas ilegalmente espécies sem potencial para a produção melífera, como a boca-de-sapo (Partamona helleri) e mombucão (Cephalotrigona capitata), cujo mel não apresenta sabor palatável.
"Esses dados revelam um preocupante mercado de criadores e de colecionadores ávidos pelos mais diferentes grupos, independente do potencial produtivo da espécie em alguns casos”, analisou o pesquisador.
De acordo com Antônio, o Brasil é o maior produtor de mel do mundo e, apesar da atividade ser o desejo de quem comercializa de forma ilegal as abelhas, não pode ser colocada como culpada.
"A meliponicultura não é a vilã dessa história. A atividade pode, ao contrário, contribuir para a conservação das abelhas, evitando a ação dos meleiros, pessoas que exterminam colônias somente para retirar o mel. Ninhos manejados por meliponicultores podem produzir mel e ser multiplicados por muitos anos", explicou.
Leia a reportagem completa no g1
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