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Ambiente está em chamas 50 anos depois de criado seu Dia Mundial

07/06/2022

O último domingo (5) marca meio século do Dia Mundial do Meio Ambiente. A data foi instituída pela ONU na primeira conferência internacional sobre o tema, em Estocolmo, no ano de 1972.
Também neste mês faz aniversário a cúpula Rio-92, que após duas décadas de esforços logrou um tratado de combate ao aquecimento global. Mas não há nada para comemorar, 30 anos depois do evento carioca — certamente não no Brasil.
O recém-encerrado mês de maio acarretou recordes de queimadas por aqui. Foram 2.287 focos de incêndio no bioma amazônico, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), aumento de 96% sobre o mesmo período de 2021 e o maior registro desde maio de 2004.
Não é só a disparada que causa alarme, mas o fato de que a temporada mais seca e propícia para tocar fogo na mata está mal começando em maio. Recaímos no padrão perverso do tempo em que anos eleitorais sempre turbinavam a devastação.
Não seria o primeiro nem o último retrocesso civilizatório do governo Jair Bolsonaro, por certo. Estão aí as cifras de desmatamento da floresta amazônica, em alta nos três primeiros anos do capitão que tomou o Planalto e assedia o STF com a cumplicidade dos vendilhões do Congresso.
A tendência não desponta só nos sensores de satélites usados pelo Programa Queimadas do Inpe, mas também nas imagens de seu sistema Deter. Elas haviam gerado já em abril um recorde de alertas de desmatamento, ultrapassando pela primeira vez mil quilômetros quadrados, quase o dobro do mesmo mês em 2021.
Tampouco se trata apenas da Amazônia. O cerrado, que tem metade da extensão do bioma mais úmido ao norte, está igualmente em chamas. O Inpe detectou nada menos que 3.578 pontos de incêndio em maio na nossa savana.
Em outros números, a quantidade de queimadas no Brasil central subiu 35% no ano passado. É o maior registro para o mês de maio desde 1998, indício preocupante de que proprietários rurais, muitos armados até os dentes, se sentem confiantes na impunidade e na reeleição de Bolsonaro.
Muitos ambientalistas se queixam do catastrofismo climático, pois o prognóstico ruim sugerido pelas três décadas desde a Rio-92, uma vez reconhecido, levaria ao desânimo e à paralisia. Não é o caso desta coluna: ninguém consegue tirar o pé do lodo se não admitir que ele está preso.
Cerca de 400 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica foram ao chão desde a Cúpula da Terra na capital fluminense. Mais da metade do cerrado virou cinzas, a maior parte após 1992, sob o trator dos sojeiros e a pata do boi.
O agronegócio se reagrupou na bancada ruralista, espinha dorsal do centrão. Modernizou a "narrativa" (eca), alistou um fabricante de dados da Embrapa (Evaristo de Miranda) para encorpar o mimimi, ocupou o latifúndio da Rede Globo com o cultivo perene do "agro é pop", passou o correntão no Código Florestal, ajudou a desferir o golpe do impeachment e a eleger Bolsonaro.
Adeus Ibama, ICMBio, Fundo Amazônia, Conama e Funai. Nenhum centímetro de terras indígenas para homologação. Garimpeiros, grileiros e madeireiros recebidos como heróis no Planalto.
Rezam o Acordo de Paris (2015) e o sexto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (AR6/IPCC) que o aumento da temperatura média da atmosfera precisa ficar abaixo de 1,5ºC até o fim do século, sob pena de eventos extremos devastadores. Para isso, há que reduzir emissões de carbono pela metade até 2030 e neutralizá-las em 2050.
O planeta caminha na direção oposta e já se aqueceu 1,1ºC. O lançamento de gases do efeito estufa aumentou 55% nas três décadas após 1990. A concentração de CO2 na atmosfera está em 420 ppm, contra 280 ppm antes da era industrial.
Haja otimismo.

Fonte: Folha de S. Paulo

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