
13/10/2022
Natural da Amazônia, o pirarucu (Arapaima gigas) é um dos maiores peixes de água doce do planeta, podendo ultrapassar 3 metros de comprimento e pesar em torno de 200 quilos. Nos últimos anos, pescadores têm registrado a presença desse "gigante" com cada vez mais frequência no rio Grande, corpo d’água pertencente à bacia do alto rio Paraná que banha os estados de São Paulo e Minas Gerais.
A introdução de uma espécie não nativa e que se alimenta principalmente de outros animais aquáticos despertou preocupação de pesquisadores da Unesp (Universidade Estadual Paulista) sobre os impactos nas relações ecológicas e na população local de peixes, estimulando a criação de projetos de pesquisa que investiguem as consequências da presença desse predador amazônico em águas da região Sudeste.
Os pesquisadores relatam que, até o momento, o pirarucu foi encontrado apenas em um trecho do rio Grande. Mais precisamente, entre as barragens da usina hidrelétrica de Marimbondo e da usina hidrelétrica de Água Vermelha, um segmento de aproximadamente 120 quilômetros em que o rio Grande divide os territórios mineiro e paulista.
Lilian Casatti, professora do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp, em São José do Rio Preto, explica que as duas barragens, construídas nos anos 1970 para a produção de eletricidade, causam a diminuição da correnteza original do rio. Forma-se assim um ecossistema muito parecido com o habitat natural do pirarucu na Amazônia, onde costuma ser encontrado em lagos de água formados pelo rio.
Peixes de grande porte como o pirarucu são bastante valorizados pelos produtores na aquicultura e muitas vezes são produzidos fora da sua bacia hidrográfica original. A fuga desses animais dos tanques de produção é a principal causa de introdução de espécies não nativas nos rios. Escapes acidentais, como o ocorrido no rio Grande, já resultaram na introdução do pirarucu em sistemas aquáticos nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil.
Casatti explica que, uma vez que a presença do pirarucu nas águas do rio Grande já foi estabelecida, o fundamental neste momento é medir o real impacto da espécie no novo habitat. "Hoje, no rio Grande, o pirarucu é classificado como um peixe não nativo. Para que passe a ser considerado espécie invasora precisamos pesquisar e provar que a sua presença causa dano a alguma espécie ou processo ecológico", diz. "Estamos falando de um trecho já bastante alterado do rio Grande, em que existem barragens, processos de assoreamento, perda de habitat, resíduos de agrotóxicos e presença de diversas espécies não nativas", argumenta.
A professora faz questão de frisar que o fato de o pirarucu aparentemente estar se alimentando de espécies que também não são nativas não deve ser visto como uma licença para a sua introdução no local. "Quando um peixe não nativo é introduzido, não vem sozinho. Chega com ele um pool de parasitas que estão presentes nesse organismo e também podem causar impactos que devem ser medidos. Por isso é importante o desenvolvimento de pesquisas sobre o tema", aponta.
Lidiane Franceschini, pesquisadora do campus da Unesp em Ilha Solteira, é responsável por um projeto que irá investigar os efeitos da chegada do pirarucu ao rio Grande. "O conhecimento sobre os efeitos da invasão do pirarucu na bacia receptora ainda é incipiente, informações sobre aspectos biológicos da espécie e fatores que possam influenciar o sucesso do seu estabelecimento na nova área são essenciais para subsidiar medidas de manejo local da espécie", explica a pesquisadora.
Um projeto de pós-doutorado, que terá a colaboração de pesquisadores da UEL (Universidade Estadual de Londrina), UFPR (Universidade Federal do Paraná) e Universidade de Valência, na Espanha, foi aprovado e receberá financiamento da Fapesp.
Franceschini explica que o pirarucu é uma espécie predadora de perfil carnívoro generalista ou onívoro, que costuma ocupar o topo da cadeia alimentar. Na ausência de predadores naturais ou espécies concorrentes, como pode ser o caso do rio Grande, o pirarucu pode causar extinção local de espécies de peixes e invertebrados e competir por recursos ambientais com outras espécies, além de introduzir novos parasitas nas espécies nativas. "A presença do pirarucu pode causar a diminuição de espécies importantes para a pesca regional", afirma.
Termine de ler esta matéria acessando a Folha de S. Paulo
Férias de julho cheias de diversão e aprendizado: confira opções de colônias gratuitas e particulares em Niterói
09/07/2026
Mudança climática pode eliminar até 34% das plantas usadas por povos da Amazônia, diz estudo
09/07/2026
A arquitetura invisível da reciclagem
09/07/2026
Com espaços fluidos, escola integra a natureza à aprendizagem
09/07/2026
Eucalipto se tornou vilão de incêndios florestais
09/07/2026
Novo estudo indica por que a Antártica congelou milhões de anos antes do Ártico
09/07/2026
