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Incêndios no Pantanal afetaram quase metade da população de onças-pintadas

18/10/2022

Quase metade da população de onças-pintadas do Pantanal foi afetada diretamente pelos incêndios que devastaram a região em 2020, indica um estudo feito por cientistas brasileiros. O impacto pode ter sido ainda maior nas reservas ambientais pantaneiras onde o maior carnívoro do Brasil vive.
Os cálculos são preocupantes porque o Pantanal é um dos últimos grandes refúgios da espécie no país, ao lado da Amazônia —em outros ecossistemas brasileiros, populações de onças-pintadas raramente são encontradas. Além de mortes dos grandes felinos causadas diretamente pelo fogo, a destruição de áreas que antes tinham condições ideais para a sobrevivência deles pode levar os animais à morte de forma indireta ou impedir que eles achem parceiros para se reproduzir.
"Além de avaliar o impacto do fogo sobre as onças-pintadas do Pantanal de forma comparativa ao longo dos anos, a pesquisa analisa também como esse impacto pode ser negativo para espécie se ocorrer de maneira descontrolada, com alta frequência e intensidade", disse à Folha o primeiro autor da pesquisa, Alan Eduardo de Barros, doutorando do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da USP.
O trabalho de Barros, que assina o estudo junto com seu orientador, Paulo Inácio Barros, e outros pesquisadores do Brasil, dos EUA e do Paraguai, acaba de sair na revista científica Communications Biology. A equipe combinou dados de satélite sobre os incêndios pantaneiros de 2020 com informações sobre a população das onças da região e sobre os deslocamentos dos bichos pelo território.
Esses detalhes vêm de estudos feitos em anos anteriores ao desastre causado pelo fogo. Como não é possível fazer um censo, contando cada indivíduo da espécie cabeça por cabeça, um desses trabalhos fez estimativas com base em armadilhas fotográficas, aparelhos que registram a presença de um animal em determinados pontos graças a câmeras com sensores de movimento. Além das armadilhas fotográficas, esse estudo levou em conta ainda a presença de cobertura vegetal considerada adequada para as onças-pintadas, entre outros fatores.
Na verdade, diz Barros, "eles subestimam um pouco a densidade populacional no Pantanal, por dois motivos". Primeiro, o estudo anterior propõe que, no máximo, haveria 7 onças a cada 100 km2 na região. "Mas pesquisas mais recentes mostram áreas desse tamanho com quase 13 indivíduos", conta ele. Além disso, o trabalho assume que os felinos seriam mais numerosos em áreas de mata fechada, o que não é verdade no caso do Pantanal, mais aberto, porém com abundância de recursos para as onças.
Levando tudo isso em conta, calcula-se que haveria 1.668 indivíduos da espécie no Pantanal. Desses, 48 onças têm sido acompanhadas ao longo dos anos por meio de colares com GPS e tiveram definidas suas áreas de vida, ou seja, o território pelos quais se deslocam com frequência em busca de comida, abrigo e parceiros.
A combinação de todas essas informações mostrou que as regiões que seriam o habitat de 45% das onças-pintadas pantaneiras —ou 746 indivíduos— foi diretamente impactado pelos incêndios de 2020. É consideravelmente mais do que a área total do Pantanal que foi afetada então (cerca de um terço). É um estrago três vezes maior do que a média das áreas afetadas por incêndios no ecossistema nos 15 anos anteriores.
Pior ainda, das 48 onças monitoradas por GPS, 38 tiveram suas áreas de vida, que deveriam ser seus principais refúgios, diretamente afetadas pela queima da vegetação e do solo. E mais da metade das reservas sob proteção ambiental que fazem parte dessas áreas de vida também sofreu os efeitos dos incêndios.
Ainda não há indícios de que as onças monitoradas tenham morrido, embora esse tenha sido o destino de dois animais da espécie que foram resgatados com queimaduras em 2020. É muito provável que isso seja apenas a ponta do iceberg. Uma estimativa recente sugere que 17 milhões de vertebrados podem ter morrido no desastre daquele ano.
"Acredito que o maior impacto do fogo na população de onças tenha sido a necessidade de procurar novas áreas com mais recursos", explica o pesquisador da USP.

A matéria na íntegra pode ser lida na Folha de S. Paulo

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