
27/08/2026
Uma chuva extrema pode atingir uma cidade inteira, mas o desastre, não. Entre a água que cai do céu e a casa que alaga existe um território: drenagem ou falta dela, rios canalizados, moradia precária, infraestrutura e renda. Trinta e cinco graus no termômetro não significam a mesma experiência em uma rua arborizada e dentro de uma casa com pouca ventilação. A ameaça climática pode ser compartilhada, mas a possibilidade de se proteger dela é profundamente desigual.
Essa é a principal provocação do relatório recém-lançado pelo Greenpeace Brasil, em parceria com o Laboratório de Ecologia e Conservação de Ecossistemas (LECE) da UERJ e a Brisa Soluções Ambientais. O documento propõe uma mudança essencial de perspectiva: olhar para a adaptação climática a partir do lugar onde o risco realmente se materializa. E quando fazemos isso, os números revelam uma arquitetura de exclusão.
Aproximadamente 70% dos municípios brasileiros apresentam níveis elevados de vulnerabilidade à escassez hídrica. No entanto, olhar apenas para médias municipais esconde a geografia do risco. Entre os 20 municípios que concentram as maiores populações em favelas, como Ananindeua (PA) e Manaus (AM), há uma sobreposição de risco muito alto para deslizamentos, inundações e secas.
Essa geografia tem cor. Segundo o Censo 2022 do IBGE, 73% dos moradores de favelas e comunidades urbanas brasileiras são pessoas pretas ou pardas. É nesse ponto que falar em racismo ambiental deixa de ser teoria: o clima encontra uma cidade que já distribuía proteção de maneira desigual. A segregação socioespacial não está desconectada da crise climática; ela é seu fundamento material.
O que o relatório documenta é que vulnerabilidade climática e vulnerabilidade social não são fenômenos paralelos, mas a mesma coisa vista de ângulos diferentes. Uma mulher preta morando em uma encosta de Jaboatão dos Guararapes (PE) não enfrenta dois riscos independentes. Enfrenta um risco único, estruturalmente composto: o risco de ser preta, pobre, morando onde a especulação imobiliária a tolera, em um território que o clima se torna cada vez mais letal.
O curioso é que entre 2010 e 2023, o Brasil investiu R$ 421 bilhões em ações climáticas, mas apenas 2% desse volume foi destinado à adaptação. Os recursos internacionais repetem a lógica: dos R$ 26,6 bilhões destinados ao país entre 2021 e 2022, apenas 5% focaram exclusivamente na adaptação.
Enquanto o mundo debate como reduzir emissões de carbono, problema importante, mas que tem horizonte de décadas, os territórios brasileiros já enfrentam eventos extremos que reconfiguram a vida agora. A seca de 2023-2024, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), atingiu aproximadamente 5 milhões de km², correspondendo a cerca de 59% do território brasileiro; a maior extensão registrada em 75 anos.
Apesar do Plano Clima 2024-2035 articular 16 planos setoriais e reconhecer a importância da igualdade racial como eixo transversal, apenas 13% dos municípios avaliados possuem um Plano de Adaptação formalizado. Em mais de 90% dessas cidades, a população não tem canais de participação para discutir o tema.
Isso significa que em cidades como Recife, onde o Ibura Mais Clima já funciona monitorando deslizamentos com tecnologia participativa, ou em Manaus, onde mulheres indígenas manejam florestas há séculos, as decisões sobre como proteger aqueles territórios não passam por quem os conhece. Passam por ministérios, por consultorias internacionais, por planos escritos em Brasília. E quando chegam aos territórios, chegam tarde, descalibrados, sem os recursos necessários.
No entanto, no vácuo da política pública, o conhecimento territorial funciona. Bons exemplos brasileiros de Adaptação Baseada na Comunidade (AbC) já produzem impactos socioambientais positivos verificáveis.
A matéria na íntegra pode ser lida no CicloVivo
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