
12/05/2026
Quem olha hoje custa a crer que, muito antes das avenidas largas e construções imponentes, a região da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá estava submersa. Há cerca de cinco mil anos, toda a área era coberta pelo Oceano Atlântico. Foi devido ao recuo do nível do mar, por volta de três mil anos atrás, que o território atualmente conhecido como Zona Sudoeste do Rio começou a se formar, dando origem às lagoas e aos manguezais que são uma das marcas registradas da região.
As informações estão no livro “Manguezal carioca”, lançado na última quinzena, e são um primeiro passo para entender a importância desse ecossistema e a relação do ser humano com ele. A obra reúne oito anos de pesquisas do biólogo Mário Soares, do Núcleo de Estudos em Manguezais (Nema), vinculado à Uerj, e do fotógrafo Gustavo Prado.
— O desafio é mostrar que a imagem que fazemos reflete um processo de milhares de anos. A ideia do livro é que temos necessidade de resgatar uma relação de harmonia com esse ecossistema — afirma Mário Soares.
Os manguezais funcionam como berçários naturais, fundamentais para a reprodução de peixes, crustáceos — como o caranguejo guaiamum — e moluscos, além de abrigar mais de 130 espécies de aves, incluindo as migratórias, como a guará.
Outro papel essencial está ligado às mudanças climáticas. Os manguezais atuam como reservatórios de carbono, com capacidade de absorção de CO₂ até seis vezes superior à de florestas terrestres como a Mata Atlântica. Mas também há outras funções.
— O manguezal ainda funciona como uma esponja. Entra água, ele absorve e solta lentamente. Então, controla enchentes do entorno e também a energia das tempestades — explica Soares.
Abundantes na região, os manguezais da Baixada de Jacarepaguá enfrentaram ameaças constantes e de diferentes origens nas últimas décadas. Estudos do Nema citados no livro apontam que a região é altamente vulnerável à elevação do nível médio do mar, embora esses ecossistemas tenham boa capacidade de adaptação. Isso porque os manguezais precisam de espaço no entorno para fazerem uma migração natural quando ameaçados, mas o avanço urbano limita a área necessária para tanto.
José Cavalcante, mais conhecido como Zé da Lagoa por se dedicar à limpeza dos corpos d’água da região, observa no dia a dia a degradação, que decorre do crescimento desordenado e da falta de consciência da população, em sua opinião.
— Nós vemos um crescimento desordenado em toda extensão da Baixada de Jacarepaguá. Além de ocupar território dos manguezais, isso acarreta em um despejo de esgoto e lixo sólido de grandes proporções. Atuo há 22 anos fazendo a limpeza dessa região e vejo de tudo, até aparelhos de televisão, sofá, geladeira e pneus — relata.
Soares explica que essa poluição é uma grave ameaça aos manguezais. Ele salienta que essa pressão pela expansão urbana também é observada na migração de populações tradicionais desses territórios para outros lugares.
— Trabalho com manguezais há aproximadamente 40 anos e vejo que a pressão para retirada da população remanescente nesses locais segue cada vez maior, especialmente nos manguezais na Baixada de Jacarepaguá. Também vejo, infelizmente, uma crescente da violência. Já houve locais de onde minha turma e eu tivemos que sair — conta Soares.
Numa área vizinha, porém, o panorama é outro, bem mais otimista, segundo consta em “Manguezal carioca”. A Reserva Biológica Estadual de Guaratiba (Rebio) conta com 3.360,24 hectares de área protegida e abriga um dos principais remanescentes de manguezal da Região Metropolitana do Rio. Para Mário Soares, é um exemplo de conservação.
“(A Rebio) Detém o título de maior área de floresta de mangue remanescente dentro dos limites da cidade do Rio de Janeiro e um dos manguezais mais preservados do estado. Além disso, abriga os últimos sambaquis que restaram preservados na cidade”, escreve Soares no livro.
Foi na Rebio que o fotógrafo Gustavo Prado conseguiu registrar um dos animais mais difíceis de serem encontrados por humanos nesse ecossistema, conta ele: o mão-pelada, mamífero de hábitos discretos e predador de caranguejos.
— Especialistas diziam ser quase impossível fotografar o mão-pelada, por isso, o animal virou uma lenda. Então, acompanhei armadilhas de caranguejo, mas, por sorte, já na primeira manhã, um apareceu se alimentando perto e consegui registrar — recorda Gustavo Pedro.
Além da sua importância ecológica, os manguezais também têm papel social e, sendo fonte de subsistência para comunidades que vivem da pesca, do artesanato e da coleta de recursos naturais, aspecto contemplado no capítulo “Manguezais cariocas e sua gente” do livro. O professor de surfe Márcio dos Santos, morador da região, filho de pescador e fundador do Instituto Núcleo Maré (Innmar) sabe bem disso.
— Nós tínhamos o comércio de camarão cinza médio e, para os restaurantes locais, as ostras. Mas, com a degradação dos últimos 20 anos, os dois acabaram. São diversas famílias impactadas — diz.
Embora destaque a importância dos manguezais na Zona Sudoeste e na área de Guaratiba, o livro abarca manguezais de toda a cidade. E, entre alertas e curiosidades, ajuda também a esclarecer uma dúvida comum: é mangue ou manguezal? Os autores explicam que mangue é o nome de uma espécie de árvores típicas desse ambiente, enquanto manguezal se refere ao ecossistema como um todo, que inclui solo, vegetação e fauna.
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